Donnie, espero que esta lhe encontre bem.
Não é comum o envio de cartas, hábito que ficou em décadas passadas, mas me parece que as palavras que seguem caem melhor desenhadas no papel do que digitadas na tela luminosa de um aparelho moderno. Você vai concordar, como temos concordado em muitas coisas desde que o tempo insistiu em jogar na nossa cara que é ele quem manda.
Da nossa conversa ao telefone na última terça-feira, lembro pouco. A memória me anda ausente, visita-me vez ou outra, traz uma boa lembrança e um bocado de inutilidades. Acho que falávamos sobre viagens. Isso! Você me falava sobre as idas aos Estados Unidos, que rarearam por uma série de motivos, não lembro quais, mas deve ter a ver com o governo de extrema direita que anda arrotando soberba e alimentando todo tipo de guerra, das mais insanas e religiosas às econômicas e estúpidas. Bem que você faz de não pisar naquela terra. Falando isso, me ocorreu que talvez você tenha sofrido a sanção daquela lei, como é mesmo o nome? Magnitsky! Procurei no Google. Foi isso? Não… quem somos nós para que um governo se preocupe com as idas e vindas de dois velhos e inofensivos escritores, não é mesmo?
Ah, lembrei. Falávamos de nossa diminuição de desejo de pegar estradas ou nuvens para dormir longe de nossas confortáveis camas, do conforto de uma casa cujo banheiro fica ao lado do quarto, o que é uma bênção para pessoas com nossos hábitos. Hábitos! Quem dera fosse escolha nossa. Bem, eu falava ao telefone na terça-feira (ou teria sido segunda?) que tenho viajado muito, mas é da cama para o sofá, um lugar aprazível, fácil de chegar, a poucos metros da geladeira e que me coloca diante de tudo. Lá tenho acesso a filmes, futebol e uma infinidade de programas tolos que a gente assiste por não querer pensar demais em nada.
Vez ou outra, aperto a tecla do controle que me leva a um canal de notícias, o que me traz sempre de volta à realidade e tem sido uma lástima. A realidade quando vista pelas lentes dos telejornais é um emaranhado de coisa ruim, de gente pior, de uma distopia cruel. Mas pior mesmo seria ver a realidade nas redes sociais, não é? Ainda bem que por lá o pessoal anda mais querendo disfarçar a mediocridade de suas vidas fazendo fotos montadas. A gente olha e pensa “Como sou infeliz. Por que não consigo viajar, tomar uns drinques assim, como eles? Que fracasso eu sou que não consegui juntar grana para me divertir pelo mundo”. É o capitalismo impondo desejos e ditando regras. Já te falei que sou comunista, não falei? Acho que você era meio centrão no começo de nossa amizade, não lembro. Mas com tudo que a gente viveu recentemente, não tem como ficar indiferente a tanta merda. Merda não é uma boa palavra para estar numa carta, registro eterno. Você vai guardar esta carta? Será que um dia será publicada em um livro sobre a amizade de escritores em Santa Catarina? Difícil, não é? Santa Catarina não é uma capital literária, ainda que as facilidades de publicação nos dias de hoje tenham feito surgir centenas de escritores.
É literatura que se faz por aqui? Depois da crítica daquela senhora, a Aurora Bernardini a Itamar Vieira Júnior e outros escritores, ando com receio de dizer que escrevO literatura. A gente anda priorizando o significado em detrimento da forma literária? Precisaria me debruçar sobre isso, mas recentemente, se me debruçar sobre algo, durmo.
Sábado, eu vou a Barra Velha. Obrigado pelo convite. Uma pena que não consiga levar a Jujuba comigo. Mas nos veremos pessoalmente, essa coisa tão antiga que é nos encontrarmos pessoalmente. Espero que a carta chegue antes. Bem, talvez a leve no bolso e leia para você.
Um fraterno abraço,
Jura Arruda
Microconto
Abriu a caixa velha e empoeirada que encontrara no quarto vazio. Encontrou moedas antigas que perderam o valor e uma carta jamais entregue endereçada a si próprio.















Respostas de 2
Amei a carta! Gostaria de receber uma… Seria nostálgico.
Os meios podem mudar. Porém, a gente deve cuidar em evitar que os meios provoquem, a nossa mudança.