Cuidar de quem cuida leva hospitais catarinenses a apoiarem a saúde mental de suas equipes 

Dados do INSS apontam mais de 70 mil licenças de profissionais de enfermagem por saúde mental entre 2012 e 2024, e hospitais catarinenses respondem com acolhimento e apoio espiritual 

Entre 2012 e 2024, o INSS registrou 70.701 afastamentos de profissionais de enfermagem por questões de saúde mental, segundo levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do Ministério Público do Trabalho (MPT) divulgado pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). O Cofen alerta que o total real é maior, porque a Previdência Social só contabiliza licenças a partir de 15 dias. 

O problema também preocupa fora do país. Relatório da OMS-Europa, divulgado em 10 de outubro de 2025 com mais de 90 mil respostas de profissionais dos 27 países da União Europeia, da Islândia e da Noruega, mostrou que um em cada três médicos e enfermeiros sofre de depressão ou ansiedade. Quem enfrenta violência, longas jornadas e turnos noturnos tem o dobro da probabilidade de desenvolver o quadro, em comparação com a população geral. 

Em Santa Catarina, a presidente da Federação de Hospitais e Entidades Filantrópicas de Santa Catarina (FHESC) e diretora-geral do Hospital Regional São Paulo, de Xanxerê, irmã Neusa Lúcio Luiz, descreve um sofrimento emocional muitas vezes silencioso nas equipes. O profissional cumpre a escala e atende o paciente, mas pode estar exausto. Para ela, a pandemia deu visibilidade a um problema que já existia. Sobrecarga, escassez de profissionais, múltiplas jornadas, pressão assistencial e dificuldade de conciliar trabalho e vida pessoal já existiam e seguem presentes. A mudança mais visível foi o rompimento gradual do tabu em torno da saúde mental. “Hoje compreendemos melhor que reconhecer limites e pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade consigo mesmo e com o outro”, afirma.

Ela defende que a conscientização vire rotina nos hospitais. “Não podemos esperar o profissional adoecer para agir. Precisamos construir ambientes onde ele se sinta acolhido, valorizado, pertencente e seguro para pedir ajuda”, alerta.

No Hospital Regional São Paulo, o acolhimento aos colaboradores reúne ações de humanização, integração, música, Reiki, momentos celebrativos e cuidado pastoral. A equipe de espiritualidade oferece presença, escuta e apoio. Segundo a irmã Neusa, a espiritualidade respeita a fé, o sentido e a esperança de cada pessoa, sem impor religião, e pode aparecer em uma oração, em uma música, no silêncio ou na presença de quem se dispõe a caminhar junto.

Em outros hospitais filantrópicos do estado, cada instituição desenvolve o próprio modelo, com escuta psicológica, práticas integrativas, espaços de descanso, pastoral, capelania, convivência e lideranças mais próximas das equipes. “O mais importante é que essas iniciativas não sejam ações isoladas, mas façam parte da cultura institucional. Porque cuidar das pessoas precisa ser tão importante quanto cuidar dos processos”, afirma a presidente da FHESC.

O cuidado com a equipe chega ao paciente, segundo ela. Um profissional que se sente respeitado e ouvido tem melhores condições de acolher o paciente e a família. Quando se sente seguro no ambiente de trabalho, pede ajuda, comunica riscos, reconhece erros e busca melhorias com mais facilidade. “Quando cuidamos de quem cuida, o paciente percebe e sente-se mais seguro”, resume.

Para o presidente da Associação de Hospitais do Estado de Santa Catarina (AHESC), Maurício José Souto-Maior, o tema precisa entrar na pauta da gestão hospitalar e do SUS. “Uma equipe esgotada tem menos condições de manter a qualidade e a segurança do cuidado, e isso pesa sobre um SUS que já opera com falta de profissionais. A saúde mental de quem atende precisa ser tratada em rede, entre os hospitais e com o poder público”, conclui.

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