Uma festa de encontros e porvires
Relatos sobre a 1a Festa Literarte de Campo Alegre/SC
Zica
Fechei a mala com roupas para dois dias. Percebi que não tenho blusas, casacos ou qualquer peça que suporte o clima de Campo Alegre. Nesse fim de semana, especificamente, a temperatura poderia chegar a 4 ° C. E chegou. O Zeka Chaves me ofereceu um casaco que ele havia esquecido em uma cafeteria perto da minha casa. Aceitei. O Ricardo, meu irmão, compadecido, me ofereceu um casaco pesado, com lã na parte interna, que pertenceu a Domingos, nosso pai. Aceitei.
Bem agasalhado, subimos a serra na sexta-feira depois do almoço. Dividimos a Estrada Imperial Dona Francisca com dezenas de caminhões, o que fez a viagem mais longa do que estamos acostumados. Chegamos perto das quatro da tarde e montamos nosso estande com meus livros e o de alguns parceiros nesta empreitada, como as escritoras Lethícia Braga e LiriHá.
Foi a primeira edição da Festa Literarte de Campo Alegre – FLICA, e eu fui convidado pela amiga Cristiane Bonezzi para fazer uma roda de conversa sobre a escrita a partir de uma ambientação local, de como qualquer história pode caber no nosso quintal. Uma ação quase que ativista de valorização de nossa cultura diante do poder imenso, de mídia e capital, dos Estados Unidos, principalmente.
Li um trecho de “Dona Zica roda mundo“, livro que lancei em 2018, sobre uma bicicleta, acreditando que a identificação do joinvilense seria imediata, pois Zica era o apelido dado às milhares de bicicletas que circulavam pela cidade. Porém, a maioria das crianças e jovens que leram o livro não identificaram a bicicleta como personagem até a página em que isso é exposto. No início do livro, se pensa que a personagem é uma senhora que está sendo abandonada. Mas por que não entenderam o que já consta no título? Que a personagem do livro é a Zica, uma bicicleta? Porque jovens e crianças, agora, chamam de bike.
O efeito acabou sendo muito bom pela empatia e pelo plot twist (ponto de virada) espontâneo, por outro lado, isso deixa claro o quanto a cultura estadunidense tem engolido nossa cultura local. Os impérios, tão bem utilizados em narrativas fictícias, não ficam bem do lado de cá da escrita.
A festa
Por ser o primeiro evento da Festa Literarte, não havia certeza sobre sua aceitação, o público e o movimento na tenda cultural, que ficava ao lado do palco principal e da praça de alimentação do 20o Festival de Inverno. Autoridades apostaram no fracasso da cultura local, enquanto o pessoal das mangas arregaçadas sustentava-se entre a esperança e o receio.
A noite de sexta-feira trouxe um pouco do que seriam sábado e domingo: pessoas circulando interessadas nas diversas apresentações artísticas que incluíam, exposições literárias, de obras de arte, origami e oficinas de literatura, além de apresentações de flash mob, contação de histórias e até uma oficina de tornearia.
Como toda festa é feita de encontros, tive contato com pessoas de vários lugares do país, troquei figurinhas sobre escrita, publicação e diversidade. Tudo regado ao café especial da Milena Heleodoro que ajudou a aquecer-nos do clima de inverno da serra.
Inesquecíveis
Desde que mergulhei na literatura, em especial a infantil, vivo momentos inesquecíveis. Não foi diferente desta vez. Os abraços, os olhares brilhando diante da dedicatória, da patinha carimbada de Jujuba, da nova aquisição que será lida na próxima oportunidade, à noite, antes de dormir, e os pulos de alegria com o livro nas mãos.
No domingo, quando o evento caminhava para o final, conheci Jana, uma moça que deve ter entre 13 e 14 anos, com baixa visão. Quando soube que havia um escritor ali, quase não acreditou, era um sonho seu conhecer um escritor pessoalmente, pois tem escrito suas histórias, de forma intuitiva e anda sedenta por orientação.
Ela comprou “Elizabel e o sabiá” e se aproximou de mim para o autógrafo. Contou-me que está escrevendo e queria que eu a orientasse sobre escrita. Falei sobre a escolha da história, de seus sentimentos sobre o tema, da importância do conflito e de personagens bem construídos. Sua animação era contagiante, repetiu mais de uma vez que seus escritos eram anotações que ela sentia que precisava registrar.
Na dedicatória escrevi: “Para Jana, minha nova amiga escritora. Que este livro incentive você a escrever belas histórias. Com carinho”. Li para ela, seus olhos se encheram de lágrimas, ela saiu sem me cumprimentar e eu entendi, ela não tinha os pés no chão, flutuava nas nuvens de um sonho realizado.
Eu ainda estou flutuando, nas possibilidades que a arte oferece, no quanto o humano é mais importante que a grana e em todos os encontros e emoções que um evento literário pode gerar.
Que as cabeças que se mantiverem baixas não seja por tristeza ou desilusão, mas por estarem lendo bons livros.

Café especial
Os grãos não eram escuros como ela costumava ver nos tempos de infância quando ia à padaria comprar o Moka moído na hora. Os que Gilda trazia, agora, eram claros e exalavam suavidade. Enquanto a água aquecia, a irmã contava sobre a viagem a Minas Gerais e como isso mudou seu jeito de encarar a vida, a começar pelo café.
Verônica pegou as velhas xícaras esmaltadas e colocou-as sobre a mesa, enquanto questionava a irmã: “O outro jeito não estava bom”? Gilda veio com o café esfumaçante e, olhando com severidade, perguntou: “É sério que vamos tomar café nessas coisas?”, Verônicareagiu: “Essas coisas são herança da mãe!”.
Gilda calou-se, por um segundo achou uma afronta colocar o café especial em uma xícara esmaltada. Verônica insistiu na pergunta anterior: “Então, o outro jeito não estava bom? O que mudou”? Gilda, mais nova e com mais insatisfações na vida, quis dizer tudo o que mudara, do jeito de encarar o tempo, da leveza de encarar as coisas, o poder de fazer pausas na correria da vida. Mas, apenas pegou a xícara da mãe, virou de um lado e de outro, colocou-a sobre a toalha e fez o café descer pelo bico do Hario V60 tocando o fundo esmaltado num encontro entre o atual e o inesquecível. “Ainda estou buscando, Vê, mas sei que quero ver as coisas com mais aroma de café e menos ausências a partir de agora.














Uma resposta
Obrigado pela linda escrita e maravilhosas mensagens, Jura Arruda.