Folhetim: capítulo 12
Rato e caranguejo
A praça mais central da cidade estava quase sem movimento naquele início de noite de terça-feira, e parecia ainda mais fria porque da flora que outrora a coloria sobrou apenas uma figueira. Ao redor, calçamento e uns poucos bancos que, ao sol, não entregavam conforto. Sob a luz de suas luminárias, insetos se chocavam em voos sem sentido. Vindo da padaria, um rato atravessou veloz a rua e desacelerou ao pisar na primeira lajota da praça.
Do outro lado, a rua com pouca luz quase não permitia ver o vendedor de livros que se levantava com alguma dificuldade para começar a recolher seu material. Mais um dia de pouca venda, mais uma noite de pouco acalanto.
Dostoiévski estancou ao ouvir passos vindos da esquina. O rato, na praça, também parou e se pôs a cheirar o ar. O som cessou. A praça ganhou silêncio de quadro. Então, do canto da tela, uma figura gorda, talvez pintada por Bottero, voltou a caminhar após dar um gole em seu cantil. Trazia na mão uma corda que ia longa e amarrava em sua extremidade um caranguejo. O homem quis saber do “Amor nos tempos do cólera” e perguntou a Dostoiévski, que pegou um exemplar surrado e entregou-o.
Antes de tomar o livro em suas mãos, o Botero foi puxado com violência. O caranguejo seguiu em direção ao rato, o homem foi de arrasto. Dostoiévski tinha a sensação de estar em um conto de García Márquez.

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Escritor quando dá, editor no horário comercial, dramaturgo quando tem ideia, roteirista quando pedem. Gosta de cozinhar, mas anda com restrições alimentares; acredita no ser humano, mas às vezes não. Visita as redes sociais, mas prefere livros e filmes, principalmente em noites de chuva.











