Caindo a ficha
Cheguei ao orelhão com cinco fichas redondas de metal na mão. Coloquei a primeira na fenda do aparelho e disquei… sim, era a época da discagem, teclar veio depois. Girei os seis números (eram seis) e aguardei. Um tum-tum lento indicava que a chamada estava sendo feita. Então, o som da ficha caindo no compartimento indicava que a ligação fora atendida.
Havia muito a dizer, sempre havia, o tempo era sempre pouco. Cada ficha colocada permitia falar por cerca de três minutos para uma ligação local, infinitamente menos para ligações interurbanas. Um sinal sonoro indicava que o tempo estava acabando, colocava-se outra ficha e se abria a possibilidade de mais conversa. Do outro lado da linha, a voz era suave e quase se podia ouvir o coração dela batendo forte. Não foi uma conversa que evoluiu ou trouxe novos conhecimentos, era mais uma sucessão de frases tolas e carinhosas, de suspiros profundos e silêncios mansos. “Já vai terminar. Coloquei a última ficha. Tem um japonês atrás de mim”.
A cabine telefônica em forma de ovo, criada por Chu Ming Silveira, uma arquiteta chinesa que veio com a família ainda criança para o Brasil, virou a marca das décadas de 70 e 80 e ganhou o apelido de orelhão. Mais brasileiro impossível. Na década de 1990, a ficha deu lugar aos cartões telefônicos, mas a expressão “cair a ficha” continua sendo usada nos dias de hoje, ainda que demore para cair em alguns casos.
Na literatura, o surgimento do telefone celular criou impasses na criação de alguns conflitos: veja que um momento de tensão, de falta de contato, de necessidade de seguir um trajeto sem rumo pode se resolver com um aparelho no bolso, que todo mundo hoje em dia tem. Basta teclar e nem precisa esperar a ficha cair. Está bem, estou sendo pouco criativo, mas confesso que em algum conto, isso me travou.
Os orelhões, alguns milhares que ainda resistem nas calçadas das cidades serão recolhidos e tudo ficará para trás, como um telefonema de cinco fichas que colocou palavras doces nos ouvidos, mas que acaba quando a última ficha cai.
Ainda sobre o uso da expressão “cair a ficha”, é uma metáfora muito criativa que significa “ter um clique, entender, se ligar”, como se ligavam as pessoas quando o som da ficha metálica caia no compartimento do aparelho coberto por uma forma oval e acústica.

Na Galeria 33
Hoje tem Festival de curtas.
Shortcutz Amsterdam – Prêmio do Público Internacional.
Quando: quarta, dia 21, às 19h.
ONDE: Galeria 33, rua Bento Gonçalves, 33, Glória.
QUANTO: Gratuito. Ingressos em www.sympla.com.br.

Amanhã tem
Exposição coletiva.
Abertura da exposição “Cidade em Processo”.
QUANDO: Quinta, dia 22, às 19h. Som com o DJ Roger Thiago a partir das 20h.
ONDE: Galeria 33, rua Bento Gonçalves, 33, Glória.
QUANTO: Gratuito. Visitação até 21 de março, de segunda a sexta, das 10h às 18h.
Site do Projeto: https://www.galeria33.com/cidadeemprocesso
Pensar e criar
Sábado tem
Lançamento do “Catálogo de Obras Pensar e Criar – Arte para Todos” (Areia, 2026), uma celebração da arte como expressão, acessibilidade e cuidado com a saúde mental, fruto de um projeto do Instituto Impar.
O catálogo reúne obras criadas por participantes das oficinas Pensar e Criar, desenvolvidas ao longo de oito anos com pessoas com transtornos mentais, deficiência intelectual e neurodivergentes.
O evento acontece neste sábado, 24 de janeiro, às 15 horas, no Galpão da AAPLAJ, na Cidadela Cultural Antarctica – Rua 15 de Novembro, 1.383 – América. A entrada é gratuita.

Escritor quando dá, editor no horário comercial, dramaturgo quanto tem ideia, roteirista quando pedem. Gosta de cozinhar, mas anda com restrições alimentares; torcedor do São Paulo F.C., o que não chega a ser um alento nos dias atuais; visita as redes sociais, mas prefere livros e filmes, principalmente em noites de chuva.













