O diabo na cabeça dos rasos
Quando a arte revela a insanidade em uma sociedade débil, ensimesmada e hipócrita.
Ao entrar em um estádio de futebol, espera-se assistir futebol. Ao entrar em uma igreja, espera-se ouvir ensinamentos para o desenvolvimento espiritual. Quando se vai ao teatro, espera-se uma proposta lúdica num jogo cênico de contar histórias. Ao ir a um festival de dança, deve-se esperar a dança, em todas as suas formas, das clássicas ao que se produz de mais moderno e diverso.
Você pode gostar do que vê e ouve ou não. Um jogo sem gols pode lhe trazer um arrependimento por ter pago ingresso, uma peça teatral pode não lhe tocar. A expectativa criada interfere diretamente nessas experiências.
Talvez, pegos pelo tom que o termo “Noite de Gala” evoca, afinal, gala é palavra que pode remeter a smoking e taças borbulhantes, os desavisados não esperavam encontrar no palco do Festival de Dança de Joinville arte tão provocativa, tão distante dos cisnes. Isto, aliado à falta de informação sobre o que será apresentado e a uma certa falta de conhecimento sobre a arte e suas possibilidades, fermentado ainda pela fé cega e a faca amolada fez surgir comentários tão deslocados da realidade quanto os mais infames delírios coletivos.
Escrevi recentemente que “A dança me é estranha, me causa desconforto. Falta-me o diálogo em texto, a rubrica, o coro e o corifeu”, mas isso não me faz desdenhar desta arte, nem subjugar suas intenções e possibilidades. Não posso condenar um espetáculo sem tentar desvendá-lo. Ao acusar de satanismo o espetáculo “Réquiem SP’, do Balé da Cidade de São Paulo, pastores, vereadores e uma pequena parte do público sequer buscaram conhecimento, limitaram-se às suas convicções, aos seus credos e a uma gama de preconceitos que não cabe a um líder comunitário, a um líder cristão, nem a qualquer pessoa consciente das imensuráveis questões humanas.
Se tivessem procurado saber, entenderiam que o termo réquiem refere-se a uma liturgia católica sobre a morte; que as palavras que foram exibidas no telão são representações fonéticas de palavras em latim utilizadas nesta liturgia; que o preto do figurino, os movimentos corporais e os gritos propõem um jogo cênico a partir do tema escolhido; que o palco não é seita nem púlpito, que por mais que se esperasse um soldadinho de chumbo apaixonado, a proposta era outra.
Ao fazer uma nota de repúdio, a Câmara de Vereadores de Joinville demonstra ignorância e preconceito, deturpa conceitos cristãos e expõe a hipocrisia que paira sobre a sociedade em que vivemos, onde há incríveis ferramentas de pesquisa e conhecimento, mas se opta pela cegueira. Quando um dos vereadores publica que “A arte deve promover vida, beleza, valores e esperança”, ele está confundindo um pouco as coisas, não é a religião que deve promover a vida, os valores e a esperança? Cabe à arte outras promoções, a estética (qual for), a crítica, provocar emoções, causar desconfortos, fazer sentir, fazer pensar.
Fazer pensar, senhores! É de pensamentos, sensatez e diálogos que precisamos, hoje e sempre.
Eu não compreendo a arte da dança em sua totalidade, preciso do texto, como falei em minha coluna anterior. E quando preciso de texto, procuro. Foi pesquisando, lendo, procurando informações, ouvindo os lados do debate que entendi que este espetáculo que gerou tanta polêmica, é uma obra com propósito, com estudo e que, em nenhum momento, foi pensada para adorar qualquer entidade misteriosa.

Cena 3
Rosa e Violeta são irmãs, estão na rua após fugirem de um tiroteio em sua comunidade. Ao lado há um homem em situação de rua, que olha para elas com curiosidade.
Rosa – Se todo livro é especial, tanto faz o livro.
Violeta – Aquele era mais especial.
Rosa – O que ele tem de tão especial?
Violeta – A história.
Rosa – E fala sobre o quê?
Violeta – Ainda não sei direito.
Rosa – E como pode achar a história especial?
Violeta – A história do livro. (Rosa demonstra não estar entendendo) Não do livro, de como eu ganhei.
Rosa – Que a mãe te deu.
Violeta – Não é só porque ela me deu.
Rosa – E por que foi?
Violeta – Foi num dia que eu não fui pra escola. Fiquei com a mãe em casa, lembra? Que ela estava doente?
Rosa – Lembro.
Violeta – Aí ela pegou o livro pra ler e deixou eu ficar deitada com ela na cama. A gente ficou a tarde toda e ela leu pra mim.
Rosa – E o que tem de especial nisso?
Violeta – E-la-leu-pra-mim! A mãe nunca tem tempo, você sabe. Naquele dia, ela tinha. Mas o livro era muito grande. Aí pediu pra eu ler todo dia um pouco e contar pra ela quando ela chegasse.
Rosa – Agora não precisa mais.
Violeta – (em tom de choro) Precisa.
Rosa – Quando der eu vou buscar pra você.
O homem se levanta
Violeta – (finalmente o vê) Oi.
Rosa – Violeta!
Violeta – Quem é ele?
Rosa – Ninguém. Não fala com ele.
Violeta – Ele é alguém, sim.
Rosa – Não fala com ele.
Violeta – Por quê?
Rosa – Porque ele mora na rua e você não conhece.
Violeta – Então ele não pode falar com a gente também. (breve pausa) Não é?
Rosa – É diferente.
Violeta – Por quê?
Rosa – Porque a gente sabe quem a gente é.
Violeta – Quem a gente é?
Trecho do espetáculo “Flores não crescem no asfalto”














Respostas de 10
Vou procurar saber sobre a peça agora. Todos esses comentários trazem publicidade. Espero gostar!
Olá, Aline.
Caso assista a peça e não goste, está tudo bem. Nem todo espetáculo é feito para agradar os sentidos, alguns promovem reflexão e isso costuma não trazer conforto, mas pode expandir pensamentos, conhecimento e, sobretudo, entendimento da diversidade humana. Bom espetáculo!
Assino embaixo do seu texto sobre o Balé Cidade de São Paulo. Assertivo e elegante. Ambos, cada um com sua estética. Mesmo qu o elegante de SP seja uma potente missa fúnebre – ou Requiem. Bravo!
Olá, Marisa.
Obrigado por comentar. Se o espetáculo causou mal-estar em algumas pessoas, também está servindo para discutirmos arte e compreensão de mundo. A arte costuma fazer isso, não é mesmo?
Texto perfeito.
“A arte varre da alma o pó do cotidiano “, alguém definiu. Talvez a dança em questão tenha vocação para muito mais do que tirar pó. E a repercussão em Jlle só demonstra o quanto estamos precisando de uma boa limpeza.
obrigada pelo compartilhamento da sua sensibilidade e inteligência!
Eu que agradeço seu olhar generoso sobre meu escrito!
Grande Jura, parabéns pela sua escrita, a qual admiro pela lucidez e respeito.
E como ela vem a nos provocar, me permita entrar na sua reflexão, sem outro interesse que não seja o de promover o diálogo. É importante lembrar que os profissionais da cultura têm como matéria de trabalho a leitura, a pesquisa e, principalmente, o desejo genuíno de contribuir para a humanização da sociedade por meio da arte.
Quando a obra Réquiem SP, do Balé da Cidade de São Paulo, ultrapassa os limites do palco e ganha repercussão pública, torna-se urgente levá-la para além da obra em si.
Considerar os contornos do que está sendo imposto à cena cultural, principalmente no que ocorreu na Câmara de Vereadores de Joinville, cidade que tem o título de ser a Capital da Dança, me preocupa quando vêm aprovar uma Moção de repúdio à apresentação, a discussão segue a uma atenção bem mais ampla. Trata-se de uma tendência ao cercear o acesso à produção artística contemporânea, afetando diretamente o direito da plateia à diversidade estética e temática.
É fundamental lembrar que a liberdade de expressão artística é um direito garantido e de grande valor para todos nós. Iniciativas que tentam impor regras e limites ideológicos ao circuito cultural ameaçam não só os artistas, mas também o público — que tem o direito de ser provocado, instigado e tocado pelas muitas vozes da arte.
Tirotti
Artista visual e professor
Niltinho, meu amigo de pasteis culturais e tanta reflexão sobre a arte e suas possibilidades. Você está certíssimo e aprofundou a discussão. Estamos falando de tentativa de cerceamento da possibilidade de oferecer ao público o direito à diversidade estética e temática, proibição de escolhas e, tão grave quanto isso, a imposição de preconceitos e dogmas. Forte abraço!