Claudio Loetz: Depois da escravidão

Políticos, empresários e parte da sociedade civil fazem lobby pela permanência ou pelo fim da escala de trabalho 6×1. Cada um defende seus interesses, ou os interesses que representa no Parlamento.

O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão. Na época, a elite agrária conservadora dizia que pagar alguém para trabalhar iria acabar com a economia do país.

Na década de 1940, sob Getúlio Vargas, foi criada a Consolidação das Leis do Trabalho – a CLT.
Os empresários, já num país que se urbanizava, argumentaram contra: isso vai acabar com a economia.

A introdução do 13 salário, duas décadas depois, jogou fogo no ambiente político da época. Mais uma vez, os empresários berraram: seria um absurdo pagar os trabalhadores por um mês a mais no ano; e a economia vai quebrar.

Nestas três situações emblemáticas de transformações socioeconômicas, as regras novas só foram implementadas porque o caldo cultural e político era claro: as relações entre empregadores e empregados precisavam ser modernizadas sob pena de haver algo próximo a uma ruptura.

Nada foi “doado” aos trabalhadores.

Agora, em maio de 2026, 80 anos depois do surgimento da CLT, a mobilização é, de novo, por mais dignidade ao trabalhador.

A questão é a proposta de eliminar a jornada de trabalho 6×1.

Em Santa Catarina há 1,25 milhão de trabalhadores atuando nesse formato: seis dias consecutivos de trabalho para um dia de descanso.
Este número significa 25 por cento da população trabalhadora. Destes, 70 por cento ganham até dois salários mínimos regionais.

Pesquisa feita pela Germinal mostra que o fim da escala 6×1 poderá criar 61. mil novos empregos formais no Estado: 24 mil na indústria; 20 mil no comércio e 17 mil no setor de serviços.

O surgimento de novos empregos aumentará o consumo e tem potencial de elevar o PIB estadual em aproximadamente 1 por cento.

O tempo dispensado ao não-trabalho garantirá maior convívio familiar; abre espaço para o lazer; incentiva possibilidades para novos aprendizados; e certamente ajudará a melhorar a saúde mental das pessoas.

Também evitará que os trabalhadores “morram” de exaustão; e essa circunstância será indutora ao aumento da produtividade.

O sociólogo italiano Domenico Di Masi escreveu uma obra antológica em 1995: “O ócio criativo”.
O livro contempla a importância de se reunir trabalho, estudo e lazer de forma produtiva e prazerosa.
O tempo livre permite o surgimento de novas ideias e contribuí para a inovação

Estamos, três décadas depois, ainda debatendo sobre o fim da escala 6×1.

A indústria e todos os organismos de representaçao do empresariado estão pressionando o Congresso a evitar a votação neste momento. É o jogo de empurrar temas indigestos com a barriga.

A FIESC, por exemplo, diz que o fim da escala 6×1 vai resultar na demissão de 41 mil trabalhadores.
Alega que o custo de produção subiria 11 por cento. Argumenta que os setores de alimentos e de madeira serão os mais impactados.
A FIESC ainda diz que reduzir a jornada de trabalho sem ampliação da produtividade implicará em aumento de preços para todos.

Agora chegou a hora de ver como os políticos, em Brasília, enxergam o Brasil.
A lembrar: do total de senadores e deputados federais, 372 são empresários e fazendeiros.
E eles querem se reeleger ou vão se candidatar a outros cargos.

A sociedade precisa buscar as conquistas.

Abaixo da média

Santa Catarina se “vende” para o país como um Estado diferenciado, onde a qualidade de vida é superior.
Um dos elementos essenciais para se medir qualidade de vida é o Noel da educação de seu povo.

Aos números, então: no Estado, apenas 59 por cento dos alunos estão com escolaridade adequada. A meta era de 67 por cento.
Mais: Santa Catarina é um dos cinco Estados que não conseguiu atingir a meta.
Os dados são do Ministério da Educação.
Se nossas crianças aprendem menos do que deveriam nas nossas escolas, não seria lógico o governo aplicar muito mais recursos na educação pública básica e de ensino médio?

Houve um.momento, em que até a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina fez ampla campanha a favor da melhoria da educação no Estado.
Todos sabem: não há evolução sem educação e sem conhecimento.

Demora e ausências

Em 2025, os postos de saúde e as unidades de pronto atendimento da prefeitura de Joinville atenderam 5 milhões e 800 mil atendimentos em consultas médicas, odontológicas, de enfermagem e visitas domiciliares.
Do total, 1 milhão e cem mil correspondem a consultas previamente agendadas
E, desse total, houve 220 mil faltas – pessoas que marcaram mas não compareceram.

Um fator pode ser demora entre o pedido de agendamento e o dia da consulta.
De todo modo, é fundamental avisar que desistiu.
Esse comportamento coletivo prejudica o sistema de saúde e impede que outras pessoas sejam atendidas.

Foto: Divulgação

Em negociação

A Hapvida já contratou o banco BTG para fazer a venda dos ativos da empresa na região Sul do país. E essa negociação inclui a Clinipam.
Hapvida e Clinipam atuam em Joinville.

FRASE

“O STF não deve ser o Procon da política”.

(Jorge Messias, ao ser sabatinado no Senado Federal)

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