Carta de euforia
O conto Carta de euforia foi publicado inicialmente no jornal Notícias do Dia, há pelo menos 15 anos. Em 2015 integrou o livro de contos e crônicas Canoas Chinesas. Ontem, ele foi lembrado por uma estudante que citou o livro em sua prova no ENEM e, agora, vai utilizá-lo em um trabalho da faculdade.
A literatura tem essa sobrevivência, essa vida longa. E nos oferece afagos quando já nem nos lembramos. Resolvi compartilhar o conto aqui, na FM.
A calçada é meu chão. Brinco com pedras. Distraio a dor. A calçada, senzala que é, impede a gente de querer mais. Faz tempo que vim pra cá. Eu nem lembro mais. Só sei que foi verão porque a noite era quente. Depois choveu dias e dias. Depois foi esfriando e esfriando. Meu coração também. Por isso que me chamam de Iceberg, né? Grande e gelado. Só não sou branco. Mas quem é?
A Isabel que desistiu de mim, não fui eu não. Ela que não quis mais. Disse que eu não era homem bom pra ela. Saiu da minha vida e até minha vida saiu de mim. Nem lembro mais a casa que eu morava, era para o lado de lá, eu acho… não lembro como que chega. Minha casa é a calçada. Tá vendo esse desenho aqui? Eu gosto. Olha só, uma pedra colocada de cada vez. Deu trabalho. Quem fez devia receber um bom salário. Eu não ligo que é duro, não. Faz até bem pra minha coluna, não faz? Ortopédico. É isso? Ortopédico.
Não vi mais a Isabel. Nem ela, nem a menina. A menina eu nunca vi mesmo. Só a barriga da Isabel crescendo. Sabia que tinha lá dentro uma menina. Lá dentro. A Isabel foi embora, levou aquele barrigão todo e o que tinha dentro só pra ela.
Eu brinco com pedras.
Não bebo muito. Mas bebo. Cachaça. Tem uma bem baratinha naquele bar ali. Eu divido. Cachaça e cigarro a gente divide, a dor é que a gente não divide, né? Cada um já tem a sua. Nem sei onde tá a minha. Acho que congelou no meio do coração. Nem sinto mais. Guardei tão bem que nem sei onde que a dor tá. Tá com a Isabel, tá com aquele barrigão. Ah, já nasceu! A Isabel não tem mais barrigão agora. Tem uma menina. Eu não tenho a menina. Nem tenho mais a Isabel.
Eu sei ler. Leio tudo. Fico lendo placa, fico lendo nome de loja. Jornal também, mas eu não gosto muito. Tem muita desgraça. Eu não gosto de ler jornal. O que eu queria ler? Mais que tudo? Uma carta da Isabel pra mim. Se eu recebesse uma carta da Isabel contando tudo, dizendo que a menina cresceu, que parece comigo, que é inteligente, eu ia ficar muito feliz. Uma carta de euforia da Isabel dizendo que eu não preciso mais ficar preso aqui, que eu posso voltar pra casa e pôr a mão naquele barrigão. A Isabel não tem mais barrigão.
Meu endereço é aqui. Sem número. O Correio passa, sim. Mas acho que a Isabel nunca mandou nada. A carta ainda não chegou, né? Se chegar? Se chegar a carta de euforia da Isabel? Eu vou pular de alegria. Vou mostrar pra todo mundo. Vou ficar feliz se eu receber a carta de euforia da Isabel pra me tirar daqui.
Aniversário com arte e memória
No dia 9 de março, a Galeria 33 vai comemorar o aniversário da cidade com a Ocupação Cultural Joinville: Monumentos e Memória. O evento terá uma vasta programação gratuita ao longo dia, com cinema, música, exposição, oficina educativa e o lançamento, às 10 horas, do Caderno dos Monumentos de Joinville, publicação que reúne informações sobre 38 marcos históricos de Joinville.
A partir das 14 horas, a galeria vira sala de cinema para exibir dois documentários de Alceu Bett: Notáveis do Samba, sobre o universo do samba e da cultura negra em Joinville, e Memória Imagética, um passeio pela história, fases e personagens das artes visuais joinvilenses.
A banda Brasil 70 sobe ao palco às 20h para colocar todo mundo para dançar ao som dos clássicos da MPB. Os ingressos, gratuitos, devem ser reservados no www.sympla.com.br.
A Galeria 33 fica na rua Bento Gonçalves, 33, bairro Glória.

Viva Joinville
O aniversário da cidade comemora mais um ano de sua fundação, com programação, que vai do tradicional desfile em frente ao Centreventos à homenagem aos imigrantes, no Cemitério do Alto da XV. Eu destaco o Festival Criativo Viva Joinville, que acontece nos dias 7 e 8, sábado e domingo, na Travessa Bachmann, mais central impossível. O evento vai das 10 às 22 horas, somando 24 horas de atrações e contará com gastronomia, moda, design, música e artesanato.
Pega o zarco, nene! Ou vá de zica mesmo, que o importante é chegar.
Escritor quando dá, editor no horário comercial, dramaturgo quanto tem ideia, roteirista quando pedem. Gosta de cozinhar, mas anda com restrições alimentares; acredita no ser humano, mas às vezes não; visita as redes sociais, mas prefere livros e filmes, principalmente em noites de chuva.














