Coluna Jura Arruda

Eu não sei dançar

Um olhar sobre a narrativa da dança, a ausência de texto e histórias.

Meu instrumento de trabalho é a palavra. Sou dos que acreditam que uma palavra pode valer mil imagens. Toca-me o texto escrito, a fala sentimental, a placa de rua. Sou mais dado ao movimento dos enredos literários do que aos passos de salão e sapatilha. Como bailarino, o máximo que consigo praticar são os passinhos dos anos oitenta, e erro. 

Como arte, a dança me é estranha, me causa desconforto. Falta-me o diálogo em texto, a rubrica, o coro e o corifeu, e resisto. Ainda que a beleza plástica e os movimentos que vão além das possibilidades da gente comum me toquem. É nas histórias que ouço, de bastidores e estrada, que encontro enredo e sentido. É quando a dança vai além do pas de deux, dos adágios e portés para sobrevoar histórias pessoais com os tão comuns obstáculos sociais, distância da família, extenuantes ensaios, ações por recursos financeiros e a busca por si próprio, que a dança me toca a alma.

Festival de Dança de Joinville traz aos palcos mais de 16 mil bailarinos e um público de mais 350 mil pessoas em 13 dias de evento, muito movimento no palco e algumas histórias tocantes. Eu observo tudo um pouco à distância e procuro nos grupos entusiasmados as histórias que vão me aproximar da arte.  

Uma dessas histórias é a de Thiago Soares, bailarino brasileiro que integrou o corpo de baile do Royal Ballet de Londres e que tem a história contada no filme “Um lobo entre os cines”. Uma exibição especial está prevista para o sábado (26), com a presença do próprio Thiago, que vai conversar com o público após o filme.

O lago dos cisnes – Foto: Festival de Dança de Joinville

Migalhas de pão 

Migalhas de pão alimentavam as pombas da praça principal. Velhos, descrentes da morte, matavam tempo alinhando peças de dominó sobre uma mesa. O sino da igreja reluzia um dourado esplendoroso, marca e orgulho das castas abastadas da cidade que, encaixada entre serra e mar, sustentava histórias de conquistas e glórias que sequer ocorreram.

Jurema tirou do pacote mais um pedaço de pão, que Iraê rasgou em pedaços menores e lançou ao chão. Cercado por sete pássaros de olhos vermelhos, o pequeno sorriu quando um deles bicou-lhe o dedo de um dos pés. 

Do outro lado, um homem sentado na calçada tinha à sua frente, livros usados. A moça aproximou-se trazendo Iraê arrastado. O homem era calvo e ostentava uma barba irregular. O corpo estava metido num paletó um tanto inapropriado para aquela atividade. Jurema abaixou-se e passou a mão por alguns livros. 

– O que a moça procura?

– Não sei, respondeu ela.

Dostoiévski passou os olhos pelas obras e sorriu.

– Sabe.

– Oi?

– Você sabe o que procura, e sabe que não está aqui. 

O vendedor apontou para a padaria do outro lado da praça, mas não pode ser ouvido quando disse “O que você procura está lá”, porque a freada brusca de um carro calou a tarde. 

– Iraê! – gritou Jurema.

Jura Arruda

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