— O que você vai fazer com esse outro, Jurema? – perguntou Caio segurando o pé direito do tênis vermelho de Iraê.
Iraê riu. A mãe ficou pensativa, deu de ombros, tomou um gole do carioquinha que esfriava na xícara.
Foi o menino que falou:
— Vou procurar um menino que tenha a perna direita.
— Da sua idade, que calce o seu número? – desafiou a mãe.
— É, ué!
— Eu ajudo – falou Caio, ao que Iraê olhou com desconfiança.
Não havia passado nem duas semanas do dia em que, na mesma padaria, Caio e Jurema trocaram telefones, e menos de uma que trocaram beijos. Iraê tinha simpatia pelo homem, mas ainda estava inseguro sobre as pretensões com sua mãe. “Deve estar sendo legal só por interesse”, pensou e resolveu testar:
— Tá bom.
A pesquisa no Google durou menos de cinco minutos e Caio encontrou alguém que havia perdido a perna esquerda num acidente.
– Tem nove anos, parece ter a sua altura, Iraê. Ela deve ser quem estávamos procurando.
– Ela? Deixa eu ver… ela mora no Rio Grande do Norte! Do Norte!
– Está bem, vamos ver se encontramos alguém mais perto. Vou pesquisar e te falo.
Iraê consentiu e pensou que tinha que ser mesmo alguém próximo, porque ele via a chance de uma amizade especial. “Acho que nunca vi uma amizade desse tipo, de um ter uma perna e outro ter a outra”, sorriu com a possibilidade.
O tênis vermelho voltou para a mão do menino, que o acariciou como uma lâmpada mágica.

Se você quiser comentar, perguntar ou sugerir, este folhetim é uma obra aberta. Conversar com você, certamente, será enriquecedor. Meu contato: juraarruda@me.com
Os capítulos publicados aqui na na Folha Metropolitana também podem ser lidos no site www.juraarruda.com
Escritor quando dá, editor no horário comercial, dramaturgo quando tem ideia, roteirista quando pedem. Gosta de cozinhar, mas anda com restrições alimentares; acredita no ser humano, mas às vezes não. Visita as redes sociais, mas prefere livros e filmes, principalmente em noites de chuva.










