Folhetim: capítulo 8
Os sapatos caminham soltos por algum canto da cidade, Jovino desapareceu, O vendedor de livros Dostoiévski a tudo observa, enquanto, no sítio de Armênia, ela descansa e sonha.

Uma ave pousou sobre o tronco que repousava no quintal à espera de virar lenha flamejante no forno da Armênia. Era branca a ave, tinha bicos longos e era a primeira vez que se via a plumosa por aquelas bandas. Tivesse ali, o marido diria que “a natureza surpreende todo dia, a natureza é uma sabida”. Mas o marido não estava e não fazia falta. Para a avó de Nicolas, Rute e David, o que se foi vivido valeu o tempo que durou. “Agora é olhar para frente, respirar e agradecer”.
Não era dia de visita, portanto, era dia de contemplação. Uma brisa tocou-lhe o rosto, ela fechou os olhos e uma sensação boa lhe tomou o corpo. Relaxada sobre a cadeira em uma varanda que remetia a filmes antigos, adormeceu. E foi em sonho que o marido reapareceu.
– Você não sabe de nada, Armênia. Aqueles velhos não sabem de nada. Tem muito caroço nesse angu. Você devia saber.
– Ora, você e suas teorias de conspiração! Não consegue ter um minuto de paz?
– Como posso ter paz com um sapato desses? Me diga!
– Fique descalço!
– Descalço? Para essa coisa enorme bicar meus dedos?
Armênia acordou e viu que a ave estava pousada ao seu lado e bicava-lhe um dos pés, mas lhe incomodava mais a visita do defunto.
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Escritor quando dá, editor no horário comercial, dramaturgo quando tem ideia, roteirista quando pedem. Gosta de cozinhar, mas anda com restrições alimentares; acredita no ser humano, mas às vezes não. Visita as redes sociais, mas prefere livros e filmes, principalmente em noites de chuva.












