Coluna Jura Arruda

Folhetim

Os folhetins surgiram na França, no início do século 19. Ocupavam a parte de baixo da folha do jornal, inicialmente com receitas, críticas e piadas. Logo passou a receber ficção. No Brasil, chegou pouco depois, no mesmo século. Seu formato de narrativa dividida em capítulos foi a principal base de inspiração para as radionovelas em 1940 e, posteriormente, para as novelas de TV, a partir de 1950.

Capítulos curtos, histórias divididas em partes, publicação diária ou semanal, apresentavam textos fáceis e temas dramáticos. Escritores como José de Alencar, Machado de Assis e Joaquim Manoel de Macedo produziram folhetins para os jornais.

 O folhetim na Folha

Imagine o centro de Joinville. Especificamente os arredores da praça Nereu Ramos, com seus jogadores de dominó, lojas e serviços, sua proximidade com a biblioteca, local onde está o marco zero da cidade.

É neste local, com algumas visitas ao mangue, que acontece a história que você passa a ler a partir de hoje, em pequenos capítulos.

Dividi cada um deles para que funcionassem isoladamente, como minicontos. Ao juntarmos tudo, teremos um mosaico de acontecimentos que devem compor uma novela. Ando dialogando com personagens e navegando por mistérios que a atmosfera propõe. Estou flertando com o realismo fantástico. Que desafio!

Convido você a acompanhar, a partir de hoje, o folhetim “Pequenas histórias de grandes insignificâncias”. O primeiro capítulo, escrevi há alguns anos, “História para encontrar a moça da padaria”, ele serviu de estopim para a criação dos seguintes.

Se quiser comentar, questionar, sugerir, trata-se de uma obra aberta, e conversar com você, certamente, será enriquecedor.

História para encontrar a moça da padaria

Era só um café na padaria, tão banal quanto qualquer coisa banal. Depois do trabalho, para jogar conversa fora com um amigo. Pois, foram dez minutos de conversa fora e a moça entrou para desviar assunto e atenção. Era pequena, curvilínea e elegante. Trazia consigo um menino que talvez fosse seu filho. Havia uma joia no dedo que não se parecia com uma aliança. Pediu um suco de laranja e uma torta doce que o desatinado não identificou porque estava mais interessado nos olhos dela. A moça retribuía com algum interesse, mas ele não encontrava palavras, nem qualquer, nem nenhuma.

Ora! Uma perguntinha que fosse!

“Você não é professora? Parece tanto com alguém que conheço”. Ela responderia: “Não. Eu trabalho na empresa Tal”. Diante da abertura, ele perguntaria: “Você não é esposa do Chico?” e ela responderia: “Não, eu não sou casada”.

Trocariam telefones.

Mas essa artimanha não lhe ocorreu. Os minutos se foram, o copo se esvaziou e ela saiu, não sem antes lançar-lhe um último olhar, quase uma súplica, que ele, sôfrego e engessado, não atendeu.

A probabilidade é que não se vejam mais e isso seja só uma história. Mas pode ser que ela leia essa história, e isso será só o começo.

Jura Arruda

Escritor quando dá, editor no horário comercial, dramaturgo quando tem ideia, roteirista quando pedem. Gosta de cozinhar, mas anda com restrições alimentares; acredita no ser humano, mas às vezes não. Visita as redes sociais, mas prefere livros e filmes, principalmente em noites de chuva.

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