As palavras não são deste mundo
Nuvens debruçaram-se sobre a cidade naquele sábado. Não eram escuras, nem desenhavam imagens, eram apenas nuvens. Rumamos para um shopping center a fim de adquirirmos uma cortina para cobrir o vão de nossa janela, que há alguns dias expunha-nos à pequena rua de lajotas e considerável movimento. Tão logo escolhemos, pagamos e carregamos, Cláudia lembrou de um compromisso, pediu-me meia hora e partiu. Com o tempo livre, segui para a livraria, antes para me deliciar com objetos decorativos do que com livros. Há tantos não lidos em casa! Passeei por estantes de lançamentos, a maioria de jovens autores estadunidenses com suas capas chamativas que não economizam brilho. Depois, vi um pequeno globo que não me chamou a atenção porque ganhei recentemente um que fica à minha frente no escritório, onde quase diariamente visito países de nomes estranhos. Parei diante de uma estante de pequenos livros de bolso onde havia clássicos, filosóficos e uma série de livros que em algum momento passaram por minha vida ou por meus olhos. Ali fiquei.

Lucíola, o livro que nunca terminei, porque chegou às minhas mãos quando contava nove anos e não me conquistou; um Nietzsche, um Platão… e me deparo com uma capa diferente, bucólica, em que uma borboleta pousa sobre um caixote com uma pena, há uma carta pendurada e marcas de tinta. O título: “As palavras não são deste mundo”. Fui irremediavelmente tomado pelo interesse. Não conhecia o autor, Hugo Von Hofmannsthal, poeta alemão. O livro traz correspondências que ele trocou com um amigo marinheiro, enquanto este navegava pelo mundo. Abro-o e leio “França, 6 de setembro de 1892. Caro Edgar! Estou em uma aldeia no fim do mundo, na região francesa do Jura (…)”.
Pago o livro e vou ao café no piso inferior, um expresso com leite me acompanha na leitura. Como era belo o texto informal do Século 19! Em nada se parece com o que alguns que leio e se dissipam frágeis sem deixar marcas.
Trinta minutos voam diante do prazer da leitura. Saio com o exemplar à mão e uma pequena felicidade no peito. Lá fora as nuvens se dissiparam.
Há um momento na vida do cronista
Escritor quando dá, editor no horário comercial, dramaturgo quando tem ideia, roteirista quando pedem. Gosta de cozinhar, mas anda com restrições alimentares; acredita no ser humano, mas às vezes não; visita as redes sociais, mas prefere livros e filmes, principalmente em noites de chuva.












