Poucas palavras
Há um momento na vida do cronista que não há o que dizer, as opiniões parecem desgastadas e, de tão inócuas, melhor não dizê-las. Explicar-se é chuva no molhado, há um silêncio querendo se impor. Ah, me falta a grande eloquência dos oradores! Sobra o cansaço dos mortalmente feridos.
Mas a arte insiste em querer dizer, no instrumental de um clássico, nos acordes de um violão, na pouca tinta de um quadro intrigante, nos pequenos contos de uma literatura breve.
O miniconto é um formato que me encanta desde muito tempo, por suas poucas palavras e lacunas que convidam o leitor a se engajar ou apenas sentir. Permite que a história siga na cabeça de quem a leu, ecoe por dias à noite ou preencha com silêncio e sabor de chá e ervas aromáticas. Mas há os que jogam o fel dorido do que se tentou esquivar, mas está sempre presente.

Abaixo, compartilho alguns que me ocorreram:
À mesa
A luz oscilava e a lâmpada emitia um som intermitente de mau contato. O pão assava no forno. A relação, cozinhadaem banho-maria. O amor esfriava sobre a mesa. Os talheres não faziam mais barulho. A faca ainda cortava.
Bolinha de gude
A lata de leite em pó estava cheia. Brincadeira enganando a fome.
Circunstância
O velho circo chegou com um palhaço no fim, um tigre de bengala e uma trapezista caidinha por mim.
Epítetos
Nem tudo são flores, suspirou o príncipe ao ver que a cidade não era mais das bicicletas.
Personagens recriadas I
Bentinho bisbilhota continuamente os e-mails de Capitu.
Personagens recriadas II
Romeu morre ao ver Julieta tomar diariamente um Lexotan.
Então
Quando me faltam as palavras, eu…
Escritor quando dá, editor no horário comercial, dramaturgo quando tem ideia, roteirista quando pedem. Gosta de cozinhar, mas anda com restrições alimentares; acredita no ser humano, mas às vezes não; visita as redes sociais, mas prefere livros e filmes, principalmente em noites de chuva.










