Coluna Jura Arruda

Relatos da passagem de ano

Quando acordei no último sábado do ano, um pássaro cantava energicamente na varanda. Motivado por seus horários organizados, alimentação natural e por ter asas. Não o invejei, afinal, era meu primeiro dia de férias, a geladeira estava abastecida e o controle remoto ao alcance.

Preparei a lista das promessas que pouco mudaram em relação ao ano anterior, exceto pela desistência da academia, que vou trocar pelo conserto da bicicleta e a crença de que pedalei nos finais de tarde. De resto é ter uma vida mais moderada em todos os sentidos, com tempo para sentir usar todos os sentidos e perceber a vida com mais tempo e qualidade.

De resto é torcer para que o imperialismo estadunidense recue, que a América do Sul continue sendo um lugar sem guerras; que o capitalismo, selvagem que é, não nos roube o que ainda nos resta de dignidade. Que a Copa do Mundo seja motivo para encontros e gritos de gol, que as eleições nos permitam por mais quatro anos a democracia, que os dias me permitam não sucumbir à descrença diante do tanto que vejo e mal posso crer.

Que os projetos sejam caminho, que o acaso seja oportunidade.

Por falar em acaso, ontem, parei para um gole, e encontrei o Dicana. 

O Dicana

O Dicana apareceu esses dias, andava sumido, ressurgiu do nada. Chegou calado e calado ficou por um tempão. Pediu uma branquinha sinalizando com o indicador e o polegar. Pegou o copo, jogou um gole sinalizando com o indicador e o polegar. Pegou o copo, jogou um gole no chão, a Rosalina odeia quando ele faz isso, depois jogou um gole pra dentro. Virou-se pra mim e, finalmente, falou:

– Conheci uma pessoa, Isabela, maravilhosa!

– Não brinca, Dicana! Conheceu como?

– Ela trabalha comigo.

– Espera aí, não é a Belinha, é?

– Ela mesma.

– Mas você conhece a Belinha há pelo menos três anos.

Ele deu mais um gole, olhou para uma das garrafas no alto da prateleira e falou sem desviar o olhar:

– Eu só trabalhava com ela, mas conhecer mesmo foi só agora.

Pegou o copo, virou tudo. Pediu outra. Chegou. Jogou pro Santo. Olha a cara da Rosalina. Jogou pra dentro e desembestou a falar da Isabela.

– Aquela menina é demais da conta! Outro dia a gente saiu com o pessoal do escritório. Que papo ela tem! Depois me deu carona até minha casa. Que pessoa! É do Rio Grande.

– Gaúcha?

– Potiguar.

– Hum!

– A gente combina muito, o mesmo gosto em tudo: música, filmes, livros, comida, tudo! Outro dia ela estava com um problema, quis sair comigo para desabafar. Ficamos juntos a noite toda. Que noite! Sabe, a gente quase não se larga. Eu estou apaixonado. Que pele ela tem, macia, branquinha.

– Poxa, Dicana! Nunca vi você assim. Vai acabar se casando.

– Vou não!

– Por quê? Vocês combinam e estão apaixonados.

– Não estamos, não.

– Mas você disse…

– Eu disse que eu estou apaixonado. Ela nem sonha.

– E por que você não fala?

– Se eu falar, ela vai terminar tudo.

– Terminar? Mas você disse que não estão namorando.

– Ela que não está.

Secou o copo num extenso gole. Pediu outra. Jogou pro santo, jogou pra dentro. Engoliu o assunto e saiu cambaleando. Paguei a conta.

Jura Arruda

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