“Peixeiro!”
A kombi reformada parou diante de nossa casa e ouvimos a voz inconfundível gritando: “Peixeiro!”. Sua visita era semanal e nós podíamos pegar tantos peixes quanto podíamos, porque o valor seria descontado da reforma que meu pai fez em seu veículo. Nesta época, eu não gostava de peixe, portanto, o escambo me pareceu um péssimo negócio.
O sol da última semana antes do Natal nos obrigava a banhos de mangueira, uma cortesia de minha mãe, com tempo contado, porque era comum no bairro novo faltar água. Enquanto nos deleitávamos no quintal, podíamos ver olhares de reprovação da vizinhança.
Meu pai voltou do portão com um cação de pelo menos três quilos. Os olhos do peixe misturavam um arregalar que antecede a morte e uma expressão de ódio, porque eu o comeria mesmo sem apreciar. “Vai comer, sim, senhor!”, dizia minha mãe enquanto depositava uma posta em meu prato.
Presente de Noel ou mágica dos sentidos, o fato é que naquele dia, logo após o Especial do Roberto Carlos, sentado à mesa com meus pais e meus irmãos, eu provei do cação e me pareceu muito bom. Repeti. Nas semanas seguintes, ao ouvir “Peixeiro!”, já não questionava o negócio feito.
Voltando àquela noite de Natal em nossa casa simples, chegou a hora de abrir os presentes. Eu não supunha os preços das coisas, nem dava conta dos anos de ditadura ou da força do capitalismo a separar abastados e oprimidos. Cada um de nós ganhou uma caixinha ou um pacote embrulhados rusticamente. Lembro da Audrey, minha irmã, vibrar com um “Resta-um”, em seguida, foi minha vez de abrir o pacote, a partir daí não lembro de muita coisa a não ser que na caixinha havia dois times de futebol de botão, palhetas e traves. Minha mãe ignorou, ou não encontrou, meu time, e escolheu, sabiamente ou por descuido, dois tricolores. Distribui os jogadores de Grêmio e Fluminense no piso de cimento que recebera uma camada de tinta “Xadrez”, que lhe dava um tom ocre. Convidei o Ricardo, meu irmão mais novo, para jogarmos. Nunca mais esqueci do meu presente nem do cação preparado por meu pai.
Soube depois, que o jogo de botão custou o equivalente a R$ 1,99 hoje. Mas veio pelas mãos de minha mãe, com o tempo que ela dedicou a pensar em mim, contando os poucos recursos que tinha, e isso é de um valor inestimável.
Meses depois, em fevereiro, o Ricardo ganhou algumas moedas por alguma prestação de serviço ou porque algum tio meteu a mão no bolso e despretensiosamente falou “Toma, pra você”. Ele foi ao mercado e voltou com uma caneta Bic e dois chicletes Ploc. Um chiclete era dele; a caneta e o outro Ploc eram meus, por conta de meu aniversário. Mais uma vez, ganhei um presente de valor inestimável.
Era uma época em que eu não entendia muitas coisas sobre a vida, mas sabia muito bem o valor de estar com meus amados, meu núcleo familiar, que me moldou e me mantém em pé diante de tudo que descobri sobre as mazelas do mundo.
Se vivi naquela época meu melhor Natal, algo se perdeu nos dias de hoje. Mas ainda que conteste a cultura natalina, seus mitos e todo consumismo que a data contempla, procuro vê-la como uma possibilidade de resgatar em mim a criança que jogava botão no chão de uma casa simples, que mascava chicletes e começou a escrever uma história.
Não me rendo mais aos apelos de um velhinho vestido de vermelho ou de uma árvore artificial colorida e iluminada. Apenas aceito e tento não atrapalhar o momento de quem possa estar vivendo algo inesquecível, como eu vivi.
Para o futuro, sonho que a humanidade não precise de dogmas, datas ou presentes para ter a sensibilidade que o mundo precisa, todos os dias que acordar pela manhã e não for Natal.
Jura Arruda














