Cláudio Loetz: Um olhar sobre as transformações de Joinville

Joinville completou 175 anos de fundação nesta semana. Aqui, neste espaço, a entrevista com o empresário Anagê Alves da Silva resume as mudanças verificadas no ambiente dos negócios imobiliários nas últimas quatro décadas.

Cláudio Loetz: O senhor acompanha de perto as transformações por que passa a cidade de Joinville ao longo de praticamente 40 anos na posição de empresário do setor imobiliário. Como vê este período?

    Anagê Alves da Silva: Cheguei em Joinville em 1972. A cidade era pequena. As pessoas tinham oportunidade de trabalho praticamente nas cinco principais indústrias. Até mesmo nos anos 1980 a indústria, que crescia se diversificação, permanecia como âncora da criação de empregos e do desenvolvimento.

    Em 1980, Joinville tinha 135 mil moradores. E não havia nada de noite. As pessoas iam dormir cedo para acordar às 5 da manhã e trabalhar.

    Nos anos 1990/2000 isso foi mudando. Vieram negócios novos, de informática, da área de serviços, o comércio cresceu e muitas novas empresas surgiram.

    CL: Quando o senhor começou no ramo de locação de imóveis, em 1988…

    Anagê: Joinville era horizontal. Quase todo mundo morava em casas. Havia muito poucos prédios. Morar em casa era tradicional. As pessoas se sentiram seguras, tinham jardins.

    CL: A grande migração dos anos 1980/90 mudou isso?

    Anagê: A vinda de muitos trabalhadores – do interior do Paraná, de Santa Catarina e de outros lugares – foi alterando o ambiente. Essas pessoas precisavam de imóveis e a grande maioria não tinha dinheiro para construir. Aí, o aluguel foi solução natural.

    No começo, a procura era maior nos bairros América, Atiradores, Centro e no início do bairro Costa e Silva.
    Donos de imóveis alugavam para complementar a renda de aposentadoria.

    CL: O senhor começou numa casa pequena e atualmente é dono da maior imobiliária de Joinville e uma das maiores de Santa Catarina.

    Anagê: Sim. Hoje tenho uma carteira de 7 mil imóveis já alugados e esse volume está bem pulverizado por bairros bem variados.

    CL: Quando ocorreu o boom do setor, que viabilizou a expansão grande dos negócios?

    Anagê: O mercado imobiliário, em Joinville, teve um boom entre 2007 e 2014, época de lançamentos de prédios com maior tecnologia e precificação superior.

    Foi o começo dos home clube e o sucesso chamou outros empreendedores.

    Anagê Alves da Silva – Foto: Divulgação.

    CL: A crise de 2014-2015 teve consequências?

    Anagê: A crise de 2014-2015 desestruturou o mercado. Nós tínhamos uma loja dedicada só a lançamentos. E tivemos de fechar.

    CL: E aí, na sequência, o novo plano diretor do município e a nova LOT deram impulso enorme ao setor da construção em Joinville.

    Anagê: Exatamente. O novo plano diretor permitiu a construção de prédios de até 15 andares e criou a outorga onerosa, o que viabilizou a construção de edifícios ainda maiores e mais altos.

    Aí uma nova onda migratória, com muitos profissionais bem qualificados, ainda aumentou mais a pressão por construção de prédios de maior qualidade. Construtoras, investidores e clientes potenciais aproveitaram esse momento.

    CL: A região Sul de Joinville ainda não se desenvolveu como poderia?

    Anagê: A região Sul de Joinville tem um estigma. É que a indústria toda foi para a região Norte e, então, os empregos lá fizeram com que a população procurasse ficar perto do trabalho.

    Evidentemente, a mobilidade é fator muito importante quando se escolhe onde vai morar. Aí, a região Sul ficou predominantemente, com imóveis de menor valor, e em alguns casos, com foco no programa Minha Casa, Minha Vida.

    CL: Atualmente, os bairros mais procurados ainda estão no Norte?

    Anagê: Sim. América, Atiradores, região do Centro, próximo ao Batalhão e da rua Otto Boehm. E o bairro Costa e Silva é o mais procurado. Tem recorde de procura por causa da logística. Tem muito boa estrutura, está perto das indústrias e também tem fácil acesso para a BR-101.

    CL: Depois da construção de prédios altos espalhados por várias regiões de Joinville, qual será a próxima onda?

    Anagê: Joinville tem poucos condomínios residenciais fechados. Está é a demanda que vai aumentar. As famílias estão procurando privacidade e segurança combinadas com boa qualidade de vida.

    Na Estrada da Ilha serão construídos vários condomínios horizontais fechados de médio e alto padrão e que terão toda a estrutura para uma vida confortável. Os próximos dez anos serão os anos dos negócios de condomínios fechados horizontais em Joinville.

    CL: Há uma evidente carência de imóveis para locação na cidade. O senhor, que é expert nesse segmento, como avalia?

    Anagê: Depois de muitos anos, agora vemos uma grande falta de imóveis para alugar. Em média, tínhamos 700 imóveis para locação, que vão entrando e saindo da nossa carteira. Hoje só temos 200 imóveis em estoque para locação.

    CL: Quais são os mais procurados?

    Anagê: São os de dois quartos com dois banheiros. Aí, os preços podem variar de R$ 2500,00 a R$ 4500,00, dependendo da localização e características.

    CL: Joinville completou 175 anos de fundação. O senhor concorda que é uma cidade que atrai milhares de pessoas. E por que isso acontece?

    Anagê: Joinville tem uma localização privilegiada. Única. Entre Curitiba e Florianópolis, perto de praias e da serra. A falta de lazer (parques) decorre, em parte, por causa disso: a população vai para as praias. Bem diferente dos moradores da região do Centro oeste do Brasil: lá não tem praia a menos de mil quilômetros.

    Mercado aquecido

    Dados do SindusCon Joinville confirmam o bom momento do setor imobiliário em Joinville.
    O estoque de imóveis para venda era de 2153 unidades (apartamentos) em dezembro de 2025.
    O número é 16 por cento menor do que o verificado um ano antes.

    Outra evidência: o total de lançamentos cresceu de 2.451 apartamentos, em 2024, para 3.706, no ano seguinte. O momento é de apartamentos menores: compactos e studios, na linguagem do ramo.

    Concentração

    A EMS, fabricante de medicamentos genéricos, comprou o laboratório Medley. Com a compra, a EMS é líder nacional no.seu setor. A EMS pertence a Carlos Sanchez. O mesmo dono da NSC Comunicação.

    Investimento

    Ainda no setor de saúde, a PHS investiu R$ 160 milhões e inaugurou fábrica em Joinville para produzir medicamentos injetáveis.

    Acabou

    Símbolo de resistência heróica por várias décadas, a loja Discolandia foi vendida. Localizada na rua 15 de Novembro, no Centro de Joinville, era um ícone para quem procurava álbuns de música clássica, alemã e contemporânea. Encerra as atividades depois de 57 anos.

    Frase

    “Considerando que este país corrupto (os Estados Unidos) assassinaram o nosso líder, sob nenhuma circunstância poderemos participar da Copa do Mundo”.

    (Ahmad Donyamali, ministro do Esporte do Iran)

    O ministro do Esporte do Irã, Ahmad Donyamali. Foto: Reprodução

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