Folhetim: capítulo 3
De volta ao centro, a história encontra Jurema e o filho Iraê na praça, onde homens jogam dominó e um vendedor de livros parece ter algo a dizer.
Migalhas de pão
Migalhas de pão alimentavam as pombas da praça principal. Velhos, descrentes da morte, matavam tempo alinhando peças de dominó sobre uma mesa. O sino da igreja reluzia um dourado esplendoroso, marca e orgulho das castas abastadas da cidade que, encaixada entre serra e mar, sustentava histórias de conquistas e glórias que sequer ocorreram.
Jurema tirou do pacote mais um pedaço de pão, que Iraê rasgou em pedaços menores e lançou ao chão. Cercado por sete pássaros de olhos vermelhos, o pequeno sorriu quando um deles bicou-lhe o dedo de um dos pés.

Do outro lado, um homem sentado na calçada tinha à sua frente, livros usados. A moça aproximou-se trazendo Iraê arrastado. O homem era calvo e ostentava uma barba irregular. O corpo estava metido num paletó um tanto inapropriado para aquela atividade. Jurema abaixou-se e passou a mão por alguns livros.
– O que a moça procura?
– Não sei, respondeu ela.
Dostoiévski passou os olhos pelas obras e sorriu.
– Sabe.
– Oi?
– Você sabe o que procura, e sabe que não está aqui.
O vendedor apontou para a padaria do outro lado da praça, mas não pode ser ouvido quando disse “O que você procura está lá”, porque a freada brusca de um carro calou a tarde.
– Iraê! – gritou Jurema.
Se você quiser comentar, perguntar ou sugerir, este folhetim é uma obra aberta, e conversar com você, certamente, será enriquecedor. Meu contato: juraarruda@me.com
Escritor quando dá, editor no horário comercial, dramaturgo quando tem ideia, roteirista quando pedem. Gosta de cozinhar, mas anda com restrições alimentares; acredita no ser humano, mas às vezes não. Visita as redes sociais, mas prefere livros e filmes, principalmente em noites de chuva.












