Folhetim: capítulo 2
Depois do encontro inusitado na padaria do centro, entre Caio e Jurema, nós vamos à casa de Armênia, próxima às montanhas, onde ela tenta se reencontrar após a perda do marido.
Se você quiser comentar, perguntar, sugerir, este folhetim é uma obra aberta, e conversar com você, certamente, será enriquecedor. Meu contato: juraarruda@me.com

Nuvem na montanha
Gotas de chuva tamborilavam na varanda. A tarde ia lenta como há muito não se via. “É bom dar um tempo para as coisas, deixar o mundo entrar na gente”, ela pensava olhando longe as nuvens cobrirem a Serra do Mar. Uma chuva, talvez uma garoa, se pronunciava. Era envolvida pela atmosfera daquele dia como se fosse montanha e a vida nuvem. Está bem melhor ser sozinha por esses dias.
Ela optou por deixar que nuvens se acumulassem ao redor de si. O silêncio se fez necessário para que ela se ouvisse por dentro, que compreendesse o ritmo que seu coração propunha depois que a vida lhe tirou o bem mais precioso. Aquela montanha e as poucas manchas azuis de um céu sufocado por nuvens parecia tanto com ela, parecia tanto com a imagem que ela mesma fizera dela: impávida e serena, de mulher que encontra seu lugar no mundo.
Foi interrompida em seus pensamentos pelo cheiro que a cozinha exalava de pão assando, ela entrou, pôs a mesa. Leite, manteiga, geleia, xícaras e talheres sobre a toalha de renda não usada há anos. Chuva fina, café passando, tarde lenta, uma espera, um som de gente chegando. Entraram todos de uma vez, invadiram como nuvem a montanha que ela era.
– Oba! A vovó fez pão, a vovó fez pão!
Escritor quando dá, editor no horário comercial, dramaturgo quando tem ideia, roteirista quando pedem. Gosta de cozinhar, mas anda com restrições alimentares; acredita no ser humano, mas às vezes não. Visita as redes sociais, mas prefere livros e filmes, principalmente em noites de chuva.












