Muito antes de Araquari ser conhecida pelo nome atual, a região já havia presenciado os passos de navegadores, indígenas e imigrantes que moldaram sua história. Quem ajuda a reconstituir esse passado é o pesquisador Daia Carvalho, mestre em Patrimônio Cultural, gestor público e estudioso das culturas populares e comunidades tradicionais da região norte de Santa Catarina.
Segundo Daia, um dos primeiros registros documentais da chegada de europeus à costa norte catarinense remonta ao ano de 1541, quando o navegador espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca liderou uma expedição que marcou a trajetória do território.
Cabeza de Vaca, veterano das Américas, retornava da América do Norte rumo à Europa quando, nos Açores, encontrou outro navegador naufragado. Este, por sua vez, relatou acontecimentos envolvendo a região do Rio da Prata, no atual sul do continente, incluindo conflitos com indígenas e a notícia da existência de um núcleo urbano em formação em Asunción, no Paraguai — até então pouco conhecido pela Europa.
Diante das informações, Cabeza de Vaca obteve autorização da Coroa portuguesa para atravessar parte do continente. A bordo de sua expedição, desembarcou na região do atual Desterro (hoje Florianópolis), e organizou uma jornada por terra com aproximadamente mil homens. Em direção ao interior, chegou até a foz do rio Itapocu — atual divisa entre Barra Velha e Araquari —, de onde seguiu até a capital paraguaia.
A passagem do espanhol é considerada o primeiro registro histórico da presença europeia em terras que hoje pertencem a Araquari. Embora outros navegadores já tivessem conhecimento da costa, os relatos do diário de Cabeza de Vaca e registros posteriores de historiadores, como Eduardo Bueno, ajudam a estabelecer 1541 como o marco inicial da história documentada da região.

Século XVII e as primeiras ocupações
Após essa expedição, há um longo intervalo até que a ocupação sistemática da área se torne mais evidente. No século XVII, a região começou a receber as primeiras ações de ocupação por parte de bandeirantes paulistas. A Baía da Babitonga — conhecida à época como Paranaguá-Mirim — foi considerada estratégica, despertando o interesse de colonizadores, apesar da resistência dos povos originários.
Essas ocupações iniciais foram esparsas e movidas principalmente por interesses econômicos e militares. Naquele momento, o território era habitado por povos indígenas, como os chamados “carejós”, provavelmente grupos Guarani. A presença negra também se fez presente nesse período, de forma forçada, por meio do sistema escravagista.
A presença açoriana e a formação das comunidades
Um novo marco importante ocorre entre 1748 e 1796, com a chegada de levas de imigrantes açorianos. Inicialmente assentados em regiões como o Desterro e Itajaí, os açorianos começaram a subir o litoral, ocupando áreas como Penha, Pissarras, Barra Velha, São João do Itaperiú e a atual Araquari.
Esses colonos, originários principalmente das ilhas de São Miguel e Terceira, eram homens e mulheres acostumados tanto ao trabalho com a terra quanto ao mar. Aos poucos, formaram pequenas comunidades em regiões como Corveta, São João do Itaperiú e Barra do Itapocu, estabelecendo uma presença cultural e econômica que perdura até hoje.
Embora a configuração urbana de Araquari ainda estivesse distante, o processo de ocupação iniciado pelos indígenas e posteriormente ampliado por portugueses, bandeirantes e açorianos foi fundamental para o desenvolvimento da região.
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